Controle de hemorragia externa

Controle de hemorragia externa
Emergências traumáticas

30/05/2021

Sabia que a hemorragia é a principal causa de morte na vítima de trauma? E mais ainda: que é uma morte que muitas vezes poderia ser evitada?

O controle básico de hemorragias externas é um conhecimento que todo cidadão deveria possuir. Sabemos que o ensino, capacitação e a divulgação dos Primeiros Socorros podem fazer a diferença entre a vida e a morte. Você está preparado para interromper um sangramento externo importante, que ameace a vida de alguém? E detalhe: pode ser inclusive a sua própria vida!

De forma resumida, vou listar alguns pontos e condutas importantes no manejo das hemorragias externas. Veja só:

1º) Segurança do local. Lembre-se que em um atendimento pré-hospitalar, é de extrema importância a avaliação do cenário, para que você não se coloque em risco. Situações como acidentes e violência urbana são apenas algumas das preocupações do socorrista, antes de qualquer coisa. Portanto, nem pense em se aproximar para ajudar, se não houver segurança no local, ok? Você e sua equipe sempre em primeiro lugar. Depois os curiosos e a vítima. E gerenciar tudo isso nem sempre é fácil.

2º) Você possui equipamento de proteção individual (EPI)? Par de luvas (sugiro as nitrílicas por serem mais resistentes e não possuírem látex), máscara e óculos, para que não entre em contato com sangue e outras secreções. Vale lembrar que muitas doenças podem ser transmitidas dessa forma (hepatite B, herpes, HIV, covid-19, etc.)

3º) Avalie onde é a hemorragia e o volume da perda de sangue. Como está a vítima? Observe os sinais de choque hipovolêmico, tais como: agitação, alteração de consciência, pulso acelerado (taquicardia), respiração aumentada (taquipnéia), hipotensão arterial, ausência de pulsos radiais (mas pulso carotídeo presente), pele fria, pálida e úmida, sede, etc. Verificar a presença de uma grande hemorragia externa é algo tão importante que essa passou a ser a primeira etapa do atendimento do traumatizado (protocolo XABCDE - em breve faremos um post só sobre isso).

4º) Que materiais você têm ao seu alcance para ajudar na hemostasia? Panos limpos, compressas, gazes, bandagens? A compressão direta do ferimento é um dos primeiros métodos para o controle de uma hemorragia externa. E isso pode ser feito aplicando também uma bandagem compressiva, envolvendo o ferimento. Mas se for um sangramento massivo em membros e você tiver disponível um torniquete homologado (comercial), aplique sem medo! O mais alto possível (região proximal do membro) e apertado, ok? Já foi o tempo que torniquete era considerado como "último recurso" ou "apenas em último caso". E ele pode ficar no local, com segurança, por até 120 minutos. Só é retirado no hospital. "Se usados de modo adequado, os torniquetes não apenas são seguros, mas também salvam vidas".

5º) Hemorragias em áreas juncionais como virilha e axila podem ter o ferimento preenchido com gazes próprias e, em seguida, feita a compressão direta por cima. É a técnica conhecida como "preenchimento de feridas" ou "packing the wound". De preferência, que sejam gazes hemostáticas (como Quikclot Combat Gauze ®). Preenchimento de feridas pode ser feito também em um ferimento profundo em membros, por exemplo. Mas não esqueça de sempre aplicar pressão direta por cima, após preencher a ferida, tá? (Clique aqui para visualizar e entender melhor essa técnica). E um detalhe importante: não faça essa técnica de preenchimento se o ferimento for no tórax ou no abdome. Nessas regiões utilizamos selos de tórax, produtos também bastante conhecidos no mercado e, especialmente, na medicina tática/de combate (ou APH tático).

6º) Agentes hemostáticos (que ajudam na coagulação do sangue) também são uma excelente opção para controlar uma hemorragia externa. São substâncias geralmente granuladas, que vêm em envelopes ou aplicadores tipo seringa (muito bons no caso de ferimentos causados por tiros ou objetos penetrantes). Um hemostático bastante conhecido é o Celox. Vale a pena ter no seu Kit de Primeiros Socorros.

Enfim, essas são algumas dicas e coisas a se considerar quando estamos diante de uma hemorragia externa. Saiba que você pode e deve ajudar, desde que possua os recursos necessários (conhecimento, EPI, materiais e claro, as próprias mãos!). Se a hemorragia é interna, muitas vezes veremos o sangue exteriorizado através de orifícios, como boca, nariz, genitália e ânus). O paciente muitas vezes mostrará também os sinais de choque. Dessa forma, o transporte rápido ao hospital referência para trauma é essencial para a sobrevivência, pois pouca coisa poderemos fazer no ambiente pré-hospitalar para resolver o problema. Algo que podemos (e devemos) fazer com alguém que esteja perdendo sangue é: AQUECER! Sim, cubra a vítima com o que tiver. Uma manta aluminizada, cobertor, toalha, enfim. A hipotermia faz parte da tríade letal do trauma, piorando ainda mais a coagulação do sangue. E se vc é da equipe que atua no APH (SAMU, Bombeiros, etc), um lembrete: nada de encharcar o traumatizado de volume. Ideal é garantir um acesso venoso periférico calibroso e repôr volume com ringer lactato apenas o suficiente para sentir o pulso radial. É a chamada hipotensão permissiva. Quanto maior volume, maior diluição do sangue (o que piora a cascata de coagulação), maior a pressão arterial, o que infelizmente aumentará também a fonte do sangramento. 

Curtiu o assunto e as dicas? Compartilhe e ajude a salvar vidas!

Profª Marta Peres


Posts Relacionados

Enfermagem Forense: uma especialidade inovadora

Enfermagem Forense: uma especialidade inovadora

A enfermagem forense é uma especialidade inovadora e em evolução, que busca at

→ Leia mais...
Dificuldades no recrutamento de pessoal em APH

Dificuldades no recrutamento de pessoal em APH

Trabalhei como gestor de uma empresa de Atendimento Pré-hospitalar (APH) durante...

→ Leia mais...
Kit de Primeiros Socorros Outdoor

Kit de Primeiros Socorros Outdoor

Realizar qualquer atividade em ambiente natural requer planejamento, avaliação d...

→ Leia mais...
Marta Peres Sobral Rocha

Marta Peres Sobral Rocha


Enfermeira graduada pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), pós-graduada em Obstetrícia e Neonatologia pela Universidade de São Paulo (USP), Coordenadora do Grupo Especializado em Atendimento ao Trauma (GEAT), Fundadora e CEO do Grupo Mãos que Salvam, docente em cursos de graduação em Enfermagem, pós-graduação em Obstetrícia, Urgência e Emergência e preparatório para concursos públicos (cursinho).

→ Veja o Perfil Completo